SEMENTES LIVRES

Toda semente tem sua história, e escutando os meus mais velhos tenho algumas a partilhar!


Quando papai fala sobre as sementes se recorda do pantanal sul-mato-grossense lá pelas bandas do Rio Taquari, onde nasceu e viveu por muitos anos com meu avós, lembra saudoso da infância e de como se divertia amarrando as espigas de milho no varal do fumê (chaminé do fogão de lenha).


Essa era uma prática comum para preservar as sementes que ficariam ali guardadas de um ano para o outro, a fumaça que saía do fogão evitava o ataque de insetos e carunchos no milho.


Milho que também ia para panela e produzia deliciosos curais, pamonhas e a maravilhosa sopa paraguaia ou melhor dizer sopa guarani feita por minha avó. Que apesar de ser chamada de sopa não é liquida, um delicioso bolo de milho salgado com recheio de cebola, queijo e ovos, muito consumido no Mato Grosso do Sul.


Mamãe também se recorda que havia um lugar sagrado na extensão da casa, onde meus avós guardavam as sementes de feijão, arroz e milho . Sementes que eram secas ao sol e guardadas em tuias, para alimentar a família e para o plantio no próximo ano, tudo organizado e planejado para não faltar comida no quilombo. Nas tuias eram colocadas cinzas para proteger as sementes e evitar ataques de insetos.


E assim essas sementes passam a fazer parte das famílias, das comunidades, da história, memória e da cultura do nosso povo.


Sementes que foram guardadas, protegidas e melhoradas de forma natural por agricultores/as ao longo dos anos, passando de geração a geração. Por serem cultivadas a muitos anos na região, são variedades adaptadas ao clima, solo e outras condições climáticas locais.


Sementes tradicionais, mas dependendo da região podem assumir outros nomes como sementes de litros, sementes crioulas, sementes de garrafas, sementes da paixão, mas poderíamos chama-las de semente livres.


Esse ano colhi sementes de feijão do povo indígena Chiquitano, e essa é a nossa história.

O povo indígena Chiquitano vive na fronteira entre Brasil e Bolívia, e cultivam uma diversidade de mudas e sementes tradicionais. Por isso essas sementes tem valor imensurável, pois carregam a cultura e o modo de vida e de agricultura preservado a séculos por esse povo.


Ganhei as sementes durante uma visita ao território Chiquitano, e inspirada pelo livro - Mulheres de Eduardo Galeano, guardeis três favas dos feijões nos cabelos.


"Elas levam a vida nos cabelos", de Eduardo Galeano:


"Por mais negros que crucifiquem ou pendurem em ganchos de ferro que atravessam suas costelas, são incessantes as fugas nas quatrocentas plantações da costa do Suriname. Selva adentro, um leão negro flameja na bandeira amarela dos cimarrões. Na falta de balas, as armas disparam pedrinhas ou botões de osso; mas a floresta impenetrável é o melhor aliado contra os colonos holandeses. Antes de escapar, as escravas roubam grãos de arroz e de milho, pepitas de trigo, feijão e sementes de abóbora. Suas enormes cabeleiras viram celeiros. Quando chegam nos refúgios abertos na selva, as mulheres sacodem a cabeça e fecundam, assim, a terra livre."


E foi assim que semeie na terra, sementes livres!


Aliás toda semente deveria ser livre, e não apropriada por multinacionais e cooperações do agronegócio que transformam as sementes em mercadorias e acabam mantendo agricultores/as reféns, dependentes desse mercado que controla, contamina e modifica geneticamente as sementes.


Os agricultores/as, povos e comunidades tradicionais deveriam ter autonomia para produzirem suas sementes, reproduzirem e troca-las entre as comunidade e famílias em qualquer lugar do mundo.


Ilegal é o que o agronegócio faz contaminando nossas variedades centenárias com o avanço dos monocultivos de milho transgênico sobre os territórios tradicionais, é o Brasil ser o maior consumidor de agrotóxicos do planeta, é o governo brasileiro pressionar para liberar trigo e feijão transgênico, é o desmatamento e as queimadas no Pantanal que destruíram nossas florestas e alteraram o equilíbrio do ambiente afetando os sistemas agrícolas tradicionais.


Os feijões colhidos esse ano, são feijões livres. E como em cada lugar ele pode ter um nome diferente, eu os chamarei de Feijões Chiquitanos. Em homenagem ao povo Indígena Chiquitano que tanto sofre com o racismo ambiental e institucional do poder público e com o avanço do agronegócio sobre seus territórios.


Os feijões Chiquitanos foram colhidos e serão trocados com outras comunidades tradicionais. E depois de toda essa história é impossível comer estes alimentos e não sentir um sabor diferente. O Sabor da liberdade do gosto!


Por falar em gosto, compartilhei a receita da sopa paraguaia na aba - receitas do site.


Vídeo relato a seguir:


Por: Fran Paula

29/10/2020

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