Rotas Negras dos Alimentos

As relações econômicas definiram a rota dos alimentos em Mato Grosso. A custa do sangue e suor do trabalho agrícola do povo negro.

A conversa com o senhor Leonildo Ferreira de Jesus não tinha a intenção de abordar o período escravocrata em Mato Grosso. Justamente pelo sentimento de revolta e dor que nos toma quando pensamos no sofrimento dos nossos. Porém era notável a necessidade dele em ser ouvido e a minha em escutar.


Leonildo que tem idade do meu avô, foi falando sobre a família, o quilombo e luta pelo território Mato Cavalo em Nossa Senhora do Livramento - MT. E falar dos nossos territórios é reviver lutas passadas e fazer o caminho de volta.


Falávamos do trabalho agrícola do povo negro nos quilombos em Mato Grosso, em torno do abastecimento alimentar da capital Cuiabá.

Passei a saber alguma coisa da vivencia da Senzala através de Mamãe -avó que já era cega pelos anos.

Assim Leonildo foi me contando como se fosse ontem o encontro com sua mãe-avó Francisca Romana da Silva.


Ela dizia: Ainda existe aquela passagem que vinha de São Luiz de Cáceres a Poconé, vinha pelo sul chegava pelo Ladrão do Tanque.

Hoje eu passei a saber! Pra cá está o tanque um baião formado, e aqui era o corredor d’água.

Enquanto falava Leonildo ia riscando o chão com um pedaço de pau, descrevendo a geografia das palavras de sua avó.

Aqui tinha uma travessia que existia, ali passava carro de boi que vinha, boi de cangaia, aquela cangaia com bruaca.

Ele fazia referência a canga uma armação de madeira que prende os bois pelo pescoço para tracionar o carro de boi ou arado. Já as bruacas são bolsas feitas de couro cru, que são amarradas aos bois e burros para transportar alimentos e outros mantimentos como carne seca, farinha, rapadura entre outros, tudo preparado para as longas viagens.


Alguns estudos apontam que cada animal nesse período chegava a carregar cerca de 120 kg e chegava a percorrer até 3 000 quilômetros.


Nesse período as travessias de Cáceres a Poconé poderiam durar mais de uma semana a depender dos peso do carregamento. Trajeto que era percorrido a pé pelos escravos. Assim ele ia descrevendo um fluxo intenso entre trocas e comercialização de alimentos e outras mercadorias entre os engenhos.

Vinha mercadoria de Cáceres pra senzala em Poconé e ia daqui pra lá, assim seguiam trabalhando.

Outra hora a mãe-avó perguntava: Ainda existe aquele campo limpo? Que vinha da Santana do Carcará!

Tô sabendo que a Santana do Carcará era uma Senzala. Então esse Campo ainda existia e nós avistávamos longe. De São Luiz de Cáceres a Poconé ela fala no Sul, e pra cá Santana ela falava no Nascente.

A localização onde o sol nascia (leste) traçava o caminho de outra rota nas memórias de dona Francisca Romana, agora narradas pelo neto a mim.


No Norte ela fala assim: Passava pelo Rondon para ir para Cuiabá.

Naquele tempo o açúcar e tudo que passava no Monjolo era levado. Mesmo assim socavam o arroz no pilão que já ia pilado, fazia farinha de milho pra levar.
O senhorzinho engordava muitos porcos, quando não era banha mandava toucinho, enrolava e amarrava na Cangaia ou no carro de boi e levava. Não tinha ponte, atravessava na barca até o Mercadão do Porto em Cuiabá.

Monjolo é uma máquina hidráulica rústica, destinada ao beneficiamento e moagem de grãos.

Nós trabalhamos muito para mandar alimentos, no que mamãe – avó falava, socava arroz, socava milho, tudo pra mandar para lá.

Trabalho escravo, trabalho invisibilizado na história do Mato Grosso e do Brasil. Comércio ora de alimentos produzidos nos engenhos, ora dos corpos negros que os produziam.


O mercado do Porto funciona até hoje em Cuiabá, como um entreposto de comercialização de alimentos e outras mercadorias. Porém pouco se lê ou se escuta sobre como foi a base do sangue e suor da população negra que se manteve o abastecimento de alimentos na Vila Real do Bom Jesus de Cuyabá, hoje Cuiabá capital de Mato Grosso e em tantos outros territórios.


Relatos como os de Leonildo Ferreira de Jesus ressaltam como o trabalho agrário do povo negro contribuiu para a produção e consumo dos alimentos e da agricultura no Brasil ao longo da história.


Confiram na integra a entrevista com Leonildo Ferreira de Jesus do Quilombo Ribeirão da Mutuca em Mato Grosso.

Por Fran Paula

01/05/2021.

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