MUXIRUM

Nos meses de julho a agosto era o tempo de preparar a roça de toco ou coivara, e depois esperar a primeira chuva de outubro para plantio do arroz de noventa dias que era colhido em janeiro. Março já aproveitavam a soca do arroz, para o plantio do feijão. O trabalho feito em “Muxirum” principalmente quando a safra era boa (em grande quantidade).

Assim eu ficava materializando as histórias do meu pai, descrevendo o tempo em que vivia no Pantanal de Nhecolândia em Mato Grosso do Sul com meus avós. Mas os Muxiruns também apareciam nos relatos da minha mãe no quilombo Campina de Pedra em Poconé, descrevendo as pessoas reunidas para fazer farinha, rapadura e linguiça:

“Juntava os filhos, pais, tios e até vizinhos e passávamos o dia trabalhando e dando muita risada das histórias contadas. O trabalho rendia que nem víamos o tempo passar”. Era uma Festa!

E foi nessa escuta que fui entendendo o Muxirum como uma prática coletiva, partilhada e de solidariedade que permeia as relações culturais das comunidades tradicionais pantaneiras, quilombolas e indígenas desse território.

Uma forma de organização social para desenvolver as ações de trabalho em plantios, colheitas e preparos dos alimentos.

A palavra Muxirum é indígena (tupi-guarani) e traz significados de trabalho em grupo, ou um mutirão.

O Muxirum é uma prática centenária, resultado da herança sociocultural de povos indígenas e negros que formam a identidade desse povo pantaneiro. E que Permaneceu por séculos sendo reproduzido pelas comunidades. Prática realizada tanto por homens como pelas mulheres.

As mulheres faziam Muxiruns para fiar algodão, entre risadas e fusos o trabalho ia sendo partilhado. Um falatório o dia inteiro comenta mamãe:

Ajeitávamos um canto da casa que ficava alto de tanto algodão batido pelas mulheres, quatro batiduras já dava um fuso. Amanhecia o dia o dona da casa já fazia o quebra -torto (alimento) para continuarmos os trabalhos. Uma fiação em Muxirum dava pra tecer uma rede.

Os primeiros dados históricos do território de Mato Grosso já relatam a presença de povos indígenas realizando Muxiruns. Com a descoberta do ouro no rio Cuiabá e a chegada do povo negro que foi escravizado nessas jazidas e que posterior formaram os quilombos da região da baixada cuiabana e região sudoeste do estado, que aliás contavam também com a presença de indígenas, e ali também se vivia o Muxirum.

Na baixada cuiabana para muitas comunidades quilombolas o Muxirum foi sobretudo parte do trabalho agrícola que garantiu a permanência das famílias no território. A organização da comunidade em grupos de trabalhos para a produção de alimentos em roçados coletivos, era uma das estratégias para se manter a união do quilombo e o abastecimento alimentar das famílias como forma de resistência, principalmente nos períodos de intensos conflitos com fazendeiros pela posse da terra. Garantir a unidade das famílias e a produção de alimentos eram ações prioritárias.

O Muxirum resisti ao tempo, bem como o povo que o realiza. São organizados várias vezes ao ano, a depender da demanda das comunidades.

Meu tio-avô Hugo me ensinou que o Muxirum é realizados para favorecer cada membro da comunidade! É juntar o povo, é uma troca de dias em trabalho que se torna Muxirum!

Na maioria das vezes estão organizados em atividades de plantios de culturas alimentares (Banana, mandioca, arroz, feijão, cana – de – açúcar, milho, entre outros), no manejo do agroecossistema, para a Colheita e preparo do Alimento, mas também nas atividades de construções comunitárias e reformas na comunidade.

Em alguns relatos de comunidades quilombolas da baixada cuiabana durante os Muxiruns eram entoados os cantos de cururu no meio roça, na alegria de estar sendo o Muxirum. Na volta da roça o povo cantava versos de siriri: Cumbaru caiu folha é para chover. Pois sabiam que o Cumbaru é a ultimo arvore a perdas as a folha antes da chuva.

Durante os Muxiruns se observa uma rica troca de técnicas e saberes sobre agricultura, desde o planejamento da produção de alimentos da comunidade, a troca de sementes e mudas, técnicas de processamento dos alimentos e frutos nativos.

Promove e desencadeia ações de solidariedade entre as famílias, o que influencia diretamente na preservação da cultura alimentar da comunidade. Gosto de dizer que não existe Muxirum sem trocas!

Porém, vários são os desafios para a manutenção dos Muxiruns, um deles está ligado diretamente com a permanência no território. São inúmeros os conflitos por terras devido a expansão da fronteira agrícola e pecuária do agronegócio sobre as comunidades, que geram impactos socioambientais e desiquilíbrio dos agroecossitemas, alterando assim o modo de vida desses povos.

Agora tem se tornado mais difícil de organizar os Muxiruns como era antigamente. As estações do ano, época de plantio e de colheita estão cada vez mais sendo alteradas devido as mudanças climáticas.

O Muxirum é composto por práticas culturais que sobreviveram ao tempo e são multiplicadas nessas comunidades a muitos anos, herdadas de geração em geração. Porém uma das principais ameaças para sua manutenção está relacionado com a permanência da juventude no campo. Não se faz Muxirum sem gente!

Por: Fran Paula

Cáceres, 02/12/2020


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